sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Olhares...

Vocês já observaram uma cena poética, original, por vezes indescritível e na hora H não tinha uma câmera fotográfica?

E quando uma cena diz muita coisa pra você, mas não adiantaria fotografar porque o sentimento é todo seu? Daí você quer contar pra alguém, mas as palavras parecem não conseguir exprimir todos os detalhes. Nem da cena observada, nem do seus sentimentos em relação a ela. E parece que o encanto pertenceu só aquele minuto e não pode ser repassado a ninguém.

Moro próximo à uma praça e da janela posso observar diariamente alguns momentos poéticos despertados pelas pessoas que a freqüentam, pelas árvores ao redor e pelos pássaros que moram nelas, como estes:

- O olhar do menino era como o céu ao escurecer misto de azul e o negro – e refletia a vitrine da loja onde, de nariz colado, fixava o pequeno caminhão de bombeiro exposto à venda. Sabia que o pai estava impaciente para ir embora, mas não podia perder nenhum detalhe do que passou a ser seu mais novo objeto de desejo infantil, para melhor relatar quando a zanga do pai já tivesse passado

.- O homem inquieto, a cada minuto olhava o relógio e ao redor. Era jovem, meio gorducho e, por vestir uma camisa larga sobre a bermuda comprida até aos joelhos, parecia baixo e atarracado. Um boné disfarçava um princípio de calvície e nos pés usava tênis já meio gastos. De repente, algo lhe desperta a atenção ao olhar. Retira o boné acertando os poucos fios rebeldes, alisa a camisa decidindo que ficaria melhor por dentro da bermuda e busca no banco onde estivera sentado uma rosa embalada em celofane. Recebe o abraço de uma moça mais alta e sorri como aliviado. Teria sido perdoado?

- Justamente no meio do inverno, uma pequena árvore que vinha crescendo com galhos ressecados em meio a um pequeno canteiro mal tratado, resolveu florescer. Uma, duas...muitas flores amarelas. Localizada próximo ao movimento intenso de um ponto de ônibus, mesmo vestida pelo sol da manhã, ninguém a notou.

- Verão. Calor. A cabeceira da cama colocada embaixo da janela não foi proposital, mas por falta de espaço. E numa linda manhã ao despertar, vimos um pequeno beija-flor investigando o quarto. Nossa surpresa o assustou. Voltou ao ninho, no galho mais alto da antiga amendoeira do centro da praça e deve ter vindo apenas avaliar se havia perigo ao redor. Ou seria um simpático gesto de cumprimentar os vizinhos?

Por favor, não me acusem de voyeurismo. Afinal, de médico, louco e voyeur todo mundo não tem um pouco?

Ô pai!


Ah! Lá vem mais uma comemoração do Dia dos Pais e eu aqui com muita saudade do meu.

Ô pai! Como gostaria de poder andar no seu carro novamente pelas ruas do Rio, com você ao volante, parar num sinal, vê-lo apertar o botão que aciona o “limpa- vidros” desregulado, fazendo a água espirrar como um chafariz na direção da vítima parada ao nosso lado com a janela do carro aberta, fingir não olhar e manter-nos sérios até estarmos bem longe para enfim soltar gargalhadas ao vento.

Você adorava dirigir, mas por causa da idade, foi se tornando distraído ao volante se envolvendo ocasionalmente em pequenos acidentes que o aborreciam muito, mas nos divertiam muito mais. Uma vez, em meio ao trânsito próximo ao Norte Shopping, na Zona Norte do RJ, não freou a tempo e esbarrou de leve no pára-choque do carro que estava à nossa frente.
Talvez por se tratar de um zero quilômetro ou por imaturidade, o motorista saiu do automóvel, olhou para o pára-choque irado e disse
- Vai ter que pagar! Eu sou advogado! Eu sou advogado!

E você pai, com toda a calma que seus cabelos brancos lhe ensinaram respondeu:
- E daí que você é advogado! Não tenho dinheiro pra te pagar não! Eu sou aposentado! Eu sou aposentado!

Além de brincalhão, esse velhinho era também muito corajoso.
Aos 70 anos de idade, lembro do assalto à mão armada que sofreu em 1999. Num gesto insano de defesa de seu patrimônio mais querido - um Passat 1975 – ele reagiu à ordem de entregar o automóvel para o sujeito armado sentado ao seu lado, acelerando ainda mais a velocidade e entrando na contra-mão da Avenida dos Democráticos, no bairro de Bonsucesso - RJ onde morava, lutando com o assaltante pela posse do volante até chegar ao final desta mesma avenida onde havia uma delegacia.
E com uma perícia de causar inveja aos filmes de James Bond, subiu a calçada freando bruscamente, fazendo correr os policiais que ali estavam e o próprio assaltante que abandonou o carro às pressas sem olhar para trás.

Após esta overdose de adrenalina, para minha angústia, recebi seu telefonema contando a aventura da noite e de tão excitado, nem ouvia minhas súplicas pra que viesse dormir na minha casa:
- Ô pai! E se o ladrão voltar aí pai?, disse eu.
- Por isso mesmo que tenho que ficar aqui, ué! Ele pode voltar!
- Ô pai! Deixa de ser teimoso!

E cedinho, na manhã seguinte, me visitou, aparentando medo. Parecia um menino que fez algo de muito errado. Ouviu minhas repreensões, fez cara de arrependido e depois me contou com todos os detalhes o que poderia ter sido mais uma tragédia daquelas que lemos quase que diariamente nos jornais.

Perdoem-me amigos leitores. Pensando em escrever algo interessante para vocês hoje, só conseguia pensar em como ando doída de saudade.

Saudade do barrigão difícil de contornar com os braços, dos ombros de travesseiro, dos cabelos de neve e dos lindos olhos castanhos esverdeados que diziam mais do que qualquer palavra.

Eram seus olhos que comunicavam seus sentimentos.
Durante sua existência na Terra, presenciei neles alegrias, mágoas, preocupações e tristeza, mas não me recordo de vê-los com raiva de ninguém. Por mais zangado que estivesse por fora, os olhos mostravam que já havia perdoado por dentro.

Creio que sabia que não adiantava querer convencer a menina rebelde e metida à sabe-tudo que fui (fui?) com palavras, então simplesmente ficava olhando – divertido ou preocupado - meu descontrole emocional (e hormonal!) periódico de adolescente.

Acredito na vida após a morte e que um dia iremos nos reencontrar, mas isso não evita que eu sofra pelas coisas não ditas. Ah! As coisas que eu não te disse. Já são mais de três anos que relaciono todos os assuntos e sentimentos que deveria ter compartilhado e as diversas formas de declarar amor que deveria ter expressado melhor a você enquanto presente fisicamente. Será que consegue mesmo sentir isso tudo onde está agora?

Foi muito dolorido vê-lo partir, porém hoje acredito que, por seu espírito ter continuado muito jovem e repleto de energia, já não cabia mais naquele corpo físico tão envelhecido. Foi preciso então despi-lo, assim como despimos as roupas que já não precisamos mais, e assumir um novo corpo mais forte: o corpo espiritual e eterno por meio do qual continuamos nossa jornada de evolução e trabalho junto ao Grande Arquiteto do Universo.

Ô pai! Se pode mesmo me ouvir, saiba que te amarei pra sempre.

Os livros, sempre eles

Quem me conhece sabe que tenho paixão por livros.
Só não cultivo uma grande biblioteca por falta de espaço.

Na última mudança tive que me desfazer de muitos livros e, apesar de saber que foram parar em boas mãos, a despedida foi dolorosa demais. Mas é como um vício. Substitui os antigos por novos e meu marido costuma dizer que temos mais livros que poeira, porque sempre encontra um em cada canto.Para organizar, comprei uma estante linda, com portas de vidro e fechadura. Mas não adiantou. Foi só deixar um dia destrancado e saíram de lá pra decorar toda a casa novamente.

Logicamente, sou fã de livrarias.
Para quem trabalha no centro das grandes cidades, tem algo mais relaxante do que, depois do almoço, entrar numa livraria e ler pequenos trechos de emoção, ciência, filosofia, romance, ficção e tudo mais que nos faça fugir um pouco do stress, enquanto saboreia um gostoso café?

No Centro do Rio de Janeiro, a que acho mais acolhedora é a Livraria da Travessa.
Faço visitas constantes desde 1998, quando ainda no número onze da Travessa do Ouvidor, e haviam sinos presos ao portal anunciando a entrada dos clientes que cruzavam a porta de vidro emoldurada em madeira.

Quando iniciou a modernização, cerca de oito anos atrás, recordo que temi perder este meu refúgio. Mas a decoração continuou acolhedora: paredes revestidas de estantes de cor escura e bancadas dividindo o espaço formando corredores onde circulamos por muitos livros empilhados.Foram essas bancadas que mais me chamaram a atenção. Em cada uma delas um assunto; em cada pilha de livros, um autor. E nesse redemoinho de cultura, confesso que tenho dificuldade de encontrar sozinha o título que busco, mas aí é que está o charme dessa livraria! Por muitas vezes, não encontrei, mas fui “encontrada” por um enredo maravilhoso, uma poesia ou filosofia em livros que talvez não fossem parar nas minhas mãos de outro modo.

Freqüentando quase que diariamente, fui acompanhando as mudanças que só trouxeram melhoria. Pulou para a loja ao lado, anexou uma papelaria e um café, inseriu mais títulos de cds e dvds e nos brindou com um som ambiente tão confortador que estimula uma boa conversa ou a boa companhia do livro escolhido.

Se a intenção foi acompanhar as tendências do mercado ou se tornar mais competitiva, não sei. Mas foi tão cuidadosa em preservar seu estilo antigo que nos acostumamos com as novidades sem sentir.Agora, além de ir lá para mergulhar no universo maravilhoso da leitura, estou adquirindo aos poucos o hábito (não tão freqüente como gostaria) de me sentar numa mesinha, pedir um café e escrever. Este texto, inclusive.

Do Parto até Partir

A primeira emoção está no papel timbrado do laboratório: "Positivo". A segunda, ao ouvir, pela primeira vez, as batidas aceleradas do pequeno coraçãozinho. E vamos acompanhando a gestação de nossos bebês, ansiosas pra saber logo se é menino ou menina.

Pedimos exames de ultrasonografia constantes ao médico pra mostrar a todos que já amamos aquele serzinho em formação, mesmo quando ainda não se consegue identificar nada parecido com um bebê naquela foto obscura.
E esse amor cresce, junto com as mãozinhas, pezinhos e o sexo que ele não mostra de jeito nenhum, só pra nos deixar mais curiosos.

Notamos também, aquele cordão preso ao umbigo, mas nem demonstramos tanto interesse naquele tubinho pequeno que alimenta e transfere tanta energia para o bebê.

Eu mesma, durante toda a gravidez, só recebi três informações básicas: que é cortado na hora do nascimento; que essa é a única coisa que o pai tem permissão de fazer, se não desmaiou até este momento e que, poucas horas antes de nascer, meu filho havia se enrolado nele.

Mas hoje, conhecendo o menino bem melhor, tenho pra mim que tentou saber se na ponta daquele fio havia um joystick e um vídeo game e acabou por envolvê-lo no próprio pescoço, na ansiedade de procurar pelos dois.

De qualquer forma não foi nada doloroso o corte deste cordão. Não vi, não senti e, nem dei a menor importância. O que interessou mesmo foi vê-lo chegar, todo sujinho, pequenino, indefeso, pela mão do obstetra e ficar esperando o primeiro som:"- Será que ele chora? - Pronto! ...Chorou!..Que lindoooo!!"

Só que o tempo passou, ele cresceu (passa rápido, né?) e de repente me deparei com um cara quase duas vezes o meu tamanho, barbado, me acenando com um currículo numa mão e um recibo do primeiro salário na outra, dizendo: - Mãe! Olha, arrumei um emprego e quero morar sozinho!

E enquanto ele corria para o computador para conversar com os amigos sobre seus planos de liberdade - sim, porque o primeiro indício de que seu filho já cortou o cordão muito antes de sair de casa é que os amigos sabem mais sobre ele do que você – corri para a minha fonte inesgotável de conselhos e soluções para as mais diversas aflições: uma livraria.

Primeiro procurei por guias para “mães órfãs de filhos ingratos”, depois por “10 lições básicas que convençam seu filho a nunca sair de casa”, mas a cada nova prateleira só topava com os zombeteiros “assuma logo que seus filhos cresceram!”Percebi então que não havia nada que aliviasse minha mais nova crise feminina: a de mãe possessiva.

Puxa! Ainda ontem havia um bebê dormindo em meus braços. Dependente, carente e chorava tanto quando me via sair e agora os papéis se invertem e ...Quem é que ta chorando hein? Ah, tá bem! Assumo. Mas a verdade é que a gente nunca corta de verdade o forte laço deste amor materno.

E foi saboreando um café com Ieda e Charles que um pensamento me tomou de assalto: o desejo de independência do meu filho nada mais era do que um processo natural do ser humano (ó que frase bonita!).

Afinal de contas, eu deveria era estar grata a Deus por ter completado mais uma etapa importante de ser mãe: ver seu bebê se tornar um adulto pronto para encarar as responsabilidades da vida.

Foi pensando assim que ao chegar em casa, ensaiei em frente ao espelho testando a segurança da minha voz até encontrar o tom mais sereno e compreensivo. Depois, repetindo diversas frases de incentivo como: “Vou te apoiar nessa! Que bom que terá seu próprio espaço!”, caminhei decidida para o quarto dele, abri a porta, respirei fundo, segurei seu rosto buscando seus olhos e disse com a mais carente e gaguejante voz:

“Você promete me visitar toda semana?”

domingo, 13 de julho de 2008

É da natureza humana


Sabe quando a gente fica cansado de tudo e de todos e sente vontade de ir pra bem longe?
Quantas vezes já não arrumamos nossa malinha, mesmo que só na imaginação, pensando em fugir de todas as regras que nos são impostas por toda nossa vida? Primeiro os pais, depois a escola, e ainda a religião, a moda, a carreira...ufa!
Pense bem. De todas as realizações as quais se dedicou desde a infância, quantas delas foram conquistadas por sua própria vontade e quantas conquistou para atender às expectativas dos outros?
O quanto somos realmente livres para deixar tudo pra trás e viver sem obedecer a padronização de felicidade imposta pela sociedade?
Então?.. Já sentiu aquela vontade enorme de chutar o balde, largar tudo e ir pro Alasca?
Pois neste fim de semana conheci a história do jovem Christopher McCandless, cidadão americano nascido em Virgínia, EUA, que fez exatamente isso. Cortou laços com a família, doou 24 mil dólares para caridade e partiu numa aventura viajando sozinho como andarilho até o Alasca.
O filme Na Natureza Selvagem, baseado no livro Into the Wild de Jon Krakauer (1996) conta os detalhes desta jornada onde Christopher, após alterar seu nome para Alexander Supertramp, percorre os EUA, carregando poucos objetos em uma mochila, em busca de comunhão com a natureza. E nesta busca, ele se tomou de um amor tão grande pela vida que foi capaz de distribuí-lo por todos os novos amigos que conheceu pelo caminho e depois se isolar, sem nenhuma crise de solidão.
De início, a disposição do jovem Christopher, tão bem interpretado pelo ator Emile Hirsch, em seguir seus planos de abandono de uma vida de aparência estável, desperta em nós os sentimentos próprios dos “enquadrados” e pensamos em como ele pôde ser tão egoísta e ter a ousadia de abandonar uma vida tão confortável, tão bem planejada pelos pais, tendo tanto futuro pela frente. Mas ao longo de sua história, vamos deixando cair nossas resistências junto com os poucos bens que ele vai deixando pelo caminho e nos envolvendo com as lindas imagens da natureza repleta de liberdade , sendo embalados pelo som da bela voz de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam).
Não vou julgá-lo pela tristeza e preocupação que causou à família, nessa ânsia de fugir de regras e convenções. Muitos de nós precisamos ficar sozinhos de vez em quando seja pra nos conhecer melhor ou pra sentir falta justamente daqueles que queríamos nos manter afastados.
O ser humano é complexo. Conviver é complexo. Amar é complexo. Liberdade é complexa. Tentar escrever todas as emoções que senti assistindo ao filme é ainda mais complexo.
Deixo a dica e espero que possam comentar depois como se sentiram diante deste jovem que viveu em tão pouco tempo muito mais do que muitos viveram em mais de 80 anos de idade.
E se o final lhe parecer triste, faça como eu. Assista mais de uma vez .

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os livros, sempre eles

Quem me conhece sabe que tenho paixão por livros.
Só não cultivo uma grande biblioteca por falta de espaço.
Na última mudança tive que me desfazer de muitos livros e, apesar de saber que foram parar em boas mãos, a despedida foi dolorosa demais. Mas é como um vício. Substitui os antigos por novos e meu marido costuma dizer que temos mais livros que poeira, porque sempre encontra um em cada canto.
Para organizar, comprei uma estante linda, com portas de vidro e fechadura. Mas não adiantou. Foi só deixar um dia destrancado e saíram de lá pra decorar toda a casa novamente.
Logicamente, sou fã de livrarias.
Pra quem trabalha no centro das grandes cidades, tem algo mais relaxante do que, depois do almoço, entrar numa livraria e ler pequenos trechos de emoção, ciência, filosofia, romance, ficção e tudo mais que nos faça fugir um pouco do stress, enquanto saboreia um gostoso café?
No Centro do Rio de Janeiro, a que acho mais acolhedora é a Livraria da Travessa.
Faço visitas constantes desde 1998, quando ainda no número onze da Travessa do Ouvidor, e haviam sinos presos ao portal anunciando a entrada dos clientes que cruzavam a porta de vidro emoldurada em madeira.
Quando iniciou a modernização, cerca de oito anos atrás, recordo que temi perder este meu refúgio. Mas a decoração continuou acolhedora: paredes revestidas de estantes de cor escura e bancadas dividindo o espaço formando corredores onde circulamos por muitos livros empilhados.
Foram essas bancadas que mais me chamaram a atenção. Em cada uma delas um assunto; em cada pilha de livros, um autor. E nesse redemoinho de cultura, confesso que tenho dificuldade de encontrar sozinha o título que busco, mas aí é que está o charme dessa livraria! Por muitas vezes, não encontrei, mas fui “encontrada” por um enredo maravilhoso, uma poesia ou filosofia em livros que talvez não fossem parar nas minhas mãos de outro modo.
Freqüentando quase que diariamente, fui acompanhando as mudanças que só trouxeram melhoria. Pulou para a loja ao lado, anexou uma papelaria e um café, inseriu mais títulos de cds e dvds e nos brindou com um som ambiente tão confortador que estimula uma boa conversa ou a boa companhia do livro escolhido.
Se a intenção foi acompanhar as tendências do mercado ou se tornar mais competitiva, não sei. Mas foi tão cuidadosa em preservar seu estilo antigo que nos acostumamos com as novidades sem sentir.
Agora, além de ir lá para mergulhar no universo maravilhoso da leitura, estou adquirindo aos poucos o hábito (não tão freqüente como gostaria) de me sentar numa mesinha, pedir um café e escrever. Este texto, inclusive.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Do parto até partir

Do parto até partir

A primeira emoção está no papel timbrado do laboratório: "Positivo".A segunda, ao ouvir, pela primeira vez, as batidas aceleradas do pequeno coraçãozinho.E vamos acompanhando a gestação de nossos bebês, ansiosas pra saber logo se é menino ou menina.

Pedimos exames de ultrasonografia constantes ao médico pra mostrar a todos que já amamos aquele serzinho em formação, mesmo quando ainda não se consegue identificar nada parecido com um bebê naquela foto obscura.
E esse amor cresce, junto com as mãozinhas, pezinhos e o sexo que ele não mostra de jeito nenhum, só pra nos deixar mais curiosos.

Notamos também, em volta dele, aquele cordão preso ao umbigo, mas nem demonstramos tanto interesse naquele tubinho pequeno que alimenta e transfere tanta energia para o bebê. Eu mesma, durante toda a gravidez, só recebi três informações básicas: que é cortado na hora do nascimento; que essa é a única coisa que o pai tem permissão de fazer, se não desmaiou até este momento e que, poucas horas antes de nascer, meu filho havia se enrolado nele.

Mas hoje, conhecendo o menino bem melhor, tenho pra mim que tentou saber se na ponta daquele fio havia um joystick e um vídeo game e acabou por envolvê-lo no próprio pescoço, na ansiedade de procurar pelos dois.

De qualquer forma não foi nada doloroso o corte deste cordão. Não vi, não senti e, nem dei a menor importância. O que interessou mesmo foi vê-lo chegar, todo sujinho, pequenino, indefeso, pela mão do obstetra e ficar esperando o primeiro som:
"- Será que ele chora? - Pronto! ...Chorou!..Que lindoooo!!"

Só que o tempo passou, ele cresceu (passa rápido, né?) e de repente me deparei com um cara quase duas vezes o meu tamanho, barbado, me acenando com um currículo numa mão e um recibo do primeiro salário na outra, dizendo: - Mãe! Olha, arrumei um emprego e quero morar sozinho!

E enquanto ele corria para o computador para conversar com os amigos sobre seus planos de liberdade - sim, porque o primeiro indício de que seu filho já cortou o cordão muito antes de sair de casa é que os amigos sabem mais sobre ele do que você – corri para a minha fonte inesgotável de conselhos e soluções para as mais diversas aflições: uma livraria.
Primeiro procurei por guias para “mães órfãs de filhos ingratos”, depois por “10 lições básicas que convençam seu filho a nunca sair de casa”, mas a cada nova prateleira só topava com os zombeteiros “assuma logo que seus filhos cresceram!”
Percebi então que não havia nada que aliviasse minha mais nova crise feminina: a de mãe possessiva.

Puxa! Ainda ontem havia um bebê dormindo em meus braços. Dependente, carente e chorava tanto quando me via sair e agora os papéis se invertem e ...
Quem é que ta chorando hein? Ah, tá bem! Assumo. Mas a verdade é que a gente nunca corta de verdade o forte laço deste amor materno.

E foi saboreando um café com Ieda e Charles que um pensamento me tomou de assalto: o desejo de independência do meu filho nada mais era do que um processo natural do ser humano (ó que frase bonita!).

Afinal de contas, eu deveria era estar grata a Deus por ter completado mais uma etapa importante na vida de uma mãe: ver seu bebê se tornar um adulto pronto para encarar as responsabilidades da vida.

Foi pensando assim que ao chegar em casa, ensaiei em frente ao espelho testando a segurança da minha voz até encontrar o tom mais sereno e compreensivo. Depois, repetindo diversas frases de incentivo como: “Vou te apoiar nessa! Que bom que terá seu próprio espaço!”, caminhei decidida para o quarto dele, abri a porta, respirei fundo, segurei seu rosto buscando seus olhos e disse com a mais carente e gaguejante voz: “Você promete me visitar toda semana?”

11/05/2008

Você pensa demais...

Você pensa demais!, diz a amiga.
O filho tá crescido.
O marido tá bem servido.
O emprego tá garantido.

Você pensa demais!, diz a irmã.
O pai melhora a cada manhã."
A mãe fez torta de maçã.
O importante é ter toda a família sã.

Você pensa demais!, diz o filho.
Tirar notas baixas, é normal.
Vem escutar esse som LOUD!
Caraca, mãe! É na moral!

Você pensa demais!, diz o tempo.
Não espero mais teu sorriso.
Envelheço teus traços, e aviso:
Vê se perde um pouco de juízo!